Saúde

Mieloma Múltiplo

© AlexRaths - iStockphoto
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Roberto tem 65 anos e sua saúde sempre foi boa. Mas, um ano atrás começou a sentir fraqueza nas pernas e um grande desânimo para tudo. Depois, começaram as dores na coluna, terríveis. Consultou uma dezena de especialistas, começando pelo ortopedista, e que nada conseguiram descobrir. Foram oito meses de peregrinação a médicos e laboratórios, enquanto as dores continuavam pois os analgésicos e anti-inflamatórios não faziam efeito. Até que, por fim, uma biópsia do osso revelou o mieloma múltiplo, um câncer hematológico. Como muita gente, Roberto desconhecia a doença e até mesmo a especialidade que a trata, a hematologia, que se dedica às doenças do sangue, da medula e dos gânglios linfáticos.

O que é

O mieloma múltiplo é uma doença de idosos, apenas 2% dos casos ocorrem antes dos 40 anos e menos de 10% antes dos 50. É um câncer da medula óssea, o tecido mole e esponjoso localizado no interior da maioria dos ossos do corpo. Caracteriza-se pelo aumento descontrolado de plasmócitos (células, que fazem parte do nosso sistema imunológico, produzidas na medula e liberadas para a corrente sanguínea), que aos poucos vão destruindo o osso. Esses plasmócitos representam menos de 5% da produção das células da medula, em um organismo saudável. Já entre os portadores de mieloma podem chegar a 90% da sua produção.

Manifestações

Com os plasmócitos proliferando dentro da medula, uma das principais manifestações clínicas da doença é a lesão dos ossos, em geral os da coluna vertebral, do crânio, do quadril, das costelas, da coxa (o fêmur) e do braço (o úmero). Outra ocorrência comum nos portadores de mieloma são as fraturas, em um quadro que lembra a osteoporose, chamadas de lesões líticas.

Com o osso sendo atacado, o organismo passa a liberar cálcio em níveis elevados na corrente sanguínea, manifestação conhecida como hipercalcemia, frequentemente associada ao comprometimento da função renal, uma vez que o cálcio pode ser tóxico para os rins.
O aumento das células plasmáticas, dos níveis de cálcio e de proteínas no sangue pode alterar a produção dos glóbulos vermelhos e dos glóbulos brancos, predispondo a anemia e fadiga. O sistema imunológico do paciente é alterado, deixando-o vulnerável a infecções. Também pode ocorrer a diminuição do número de plaquetas no organismo, a chamada a trombocitopenia, manifestada por sangramentos.

Diagnóstico

Os sintomas mais frequentes são as dores nos ossos, que não passam com o uso de analgésicos; as fraturas após pequenos traumas; e as alterações bioquímicas do sangue ou da urina. Para se confirmar o diagnóstico é preciso ocorrer pelo menos dois dos seguintes eventos:

1. Uma amostra de medula óssea com concentração de plasmócitos acima de 10% (em geral, ficam acima de 20 ou mesmo 30%).

2. Uma série de raio X de todo o esqueleto revelando lesões líticas em pelo menos três ossos diferentes.

3. O aumento anormal de proteínas M nos exames de sangue. Proteínas M são aquelas secretadas pelos plasmócitos, os anticorpos ou imunoglobulinas, parte essencial do sistema imunológico. Fragmentos delas também podem aparecer em exames de urina (em muitos pacientes a suspeita de mieloma surge em exames de rotina de sangue ou urina).

4. Uma biópsia mostrando um tumor de plasmócitos, chamado de plasmocitoma, dentro ou fora do osso.

Estilo de vida: algumas condutas de suporte ajudam bastante no tratamento

1 Atividade física. O paciente deve perguntar aomédico que tipo de atividade pode praticar. Normalmente, indicam-se aquelas mais leves, como caminhada, natação, alongamento, ou um programa personalizado de ioga;
2 Dieta. Embora não haja uma especial para pacientes com mieloma, a recomendação é que seja saudável, como a dieta adotada para a doença cardíaca e para câncer em geral. Atenção com a ingestão de vitamina C, doses elevadas ( > 1.000 mg/dia) podem ser contraindicadas em mieloma, pois aumentam o risco de dano renal. Atenção também com os suplementos vitamínicos e fitoterápicos. É preciso consultar o médico sobre seu uso junto com a quimioterapia ou outro tratamento medicamentoso. As interações medicamentosas são muito comuns e podem causar problemas ao paciente.
3 Ter um sono regular é de grande importância para o sistema imunológico.
4 Fazer adaptações no estilo de vida, diminuindo o ritmo de trabalho e de reuniões sociais. O tratamento do mieloma é a prioridade até conseguir a remissão ou a estabilização da doença.

Tratamento

O mieloma pode ser tratado e controlado por tempo prolongado, permitindo ao paciente levar uma vida normal ou muito próxima desta. Os avanços da medicina hoje permitem seu controle. Uma vez diagnosticada a doença, o médico irá avaliá-la para definir um plano de tratamento específico – o mieloma afeta cada pessoa de maneira diferente.

Para o mieloma assintomático (quando os exames mostraram sua presença mas o paciente não tem sintoma da doença ativa), chamado de mieloma indolente, ainda não tratamento para impedir que se torne ativo. Mas o mieloma pode permanecer indolente por vários anos e para isto é importante um monitoramento regular do paciente. Assim, no primeiro sinal de evolução da doença o médico tomará as medidas adequadas. Eventualmente, ele irá prescrever uma medicação para prevenir danos ósseos.
O objetivo do tratamento do mieloma ativo é proporcionar qualidade de vida ao paciente e tentar controlar os efeitos da doença, reduzindo a velocidade de sua ação no organismo ou impedindo-a temporariamente. As remissões podem durar meses ou até anos. Abaixo, alguns tipos de tratamento:

Estabilização (combater os distúrbios bioquímicos e imunológicos)
– plasmaferese para diluir o sangue e evitar derrame cerebral;
– hemodiálise quando a função renal estiver comprometida;
– medicamentos para reduzir a hipercalcemia (pode incluir quimioterapia).

Paliativo (aliviar o mal estar e possibilitar uma vida normal ao paciente):
– irradiação para interromper a destruição óssea;
– eritropoetina (ou EPO) muito utilizada para o tratamento das diversas formas de anemia, de linfomas e de mieloma múltiplo;
– cirurgia ortopédica. para fraturas ósseas ou reforço da estrutura óssea.

Indução à remissão (melhorar os sintomas, retardando ou interrompendo o curso da doença):
– quimioterapia, para matar as células malignas do organismo;
– irradiação, para eliminar as células malignas no local do tumor.
Cura (remissão permanente):
– transplante de medula óssea, como uma forma de administrar quimioterapia em altas doses.

IMF: sua missão é ajudar

Enquanto não existe cura conhecida para o mieloma, os médicos têm muitas formas de ajudar os pacientes com mieloma a viver mais e melhor.

A International Myeloma Foundation-IMF, fundada em 1990, nos Estados Unidos, com este propósito, hoje tem mais de 185.000 membros em todo o mundo.

No Brasil os pacientes de Mieloma contam com a IMF Latin America, fundada em 2004 por Christine Jerez Telles Battistini, filha de um paciente que lutou contra a doença durante oito anos, e pela Dra. Vânia Tietsche de Moraes Hungria, médica hematologista da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, membro do Conselho Científico da IMF.

A IMF dá apoio aos pacientes e seus familiares, organizando palestras e seminários sobre a doença, com a participação da comunidade médica; criando grupos de apoio; editando e publicando material informativo sobre o mieloma; incentivando a pesquisa científica no tratamento e busca da cura; divulgando as tecnologias usadas; divulgando os protocolos de diagnóstico e tratamento do mieloma múltiplo; provendo iniciativas de apoio jurídico, relacionados os direitos do paciente; fazendo estudos quantitativos e qualitativos sobre o mieloma múltiplo.

www.myeloma.org.br

Lenalidomida aguarda liberação no Brasil

Pacientes com Mieloma Múltiplo contam com uma nova medicação, a lenalidomida – que ainda não foi liberada no Brasil. A eficácia deste medicamento é provada por estudos clínicos em diversas partes do mundo no tratamento de pacientes com mieloma, mas ainda não é aprovado em nosso país.

Comercializado como Revlimid®, a lenalidomida é um agente imunomodulador, isto é, um medicamento que pode modificar ou regular o funcionamento do sistema imune, melhorando a sobrevida e a qualidade de vida dos portadores de mieloma. Esses agentes têm apresentado múltiplas ações, incluindo atividades anticancerosas e anti-inflamatórias.

Além disso, Revlimid® pode atuar de modo sinérgico com outros agentes antimieloma e matar células de mieloma que sejam resistentes à terapia convencional. Os benefícios do medicamento foram confirmados em estudos internacionais, como o desenvolvido no MD Anderson Câncer Center, nos Estados Unidos, que teve participação de cientistas da Austrália, Israel e Europa.

Usado em mais de 80 países, o Revlimid já foi aprovado pela EMEA (Agência Europeia de Medicamento) na Europa, e pelo FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos, em 2006. No Brasil, os pacientes aguardam a liberação do medicamento pela Anvisa.

Fontes

IMF International Myeloma Foundation.
www.myeloma.org.br

Abrale Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia
www.abrale.org.br/doencas/mieloma/

Publicado originalmente na edição 2 impressa do Guia da 3a Idade

Sobre o autor

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