Saúde

Depressão, mal do século?

© Thinkstock
© Thinkstock

A OMS explica a depressão como uma desordem mental que se apresenta com humor depressivo, perda de interesse ou de prazer nas coisas; sentimentos de culpa e baixa autoestima; distúrbios  de sono e de apetite; falta de energia e de capacidade de concentração.

Ah, eu fiquei tão deprimida com aquela cena”! Ao ouvir esta frase, entendemos perfeitamente o que a pessoa quis dizer, ela ficou triste. No entanto, “estar deprimido”, expressão tão em voga hoje, refere-se a algo muito além da tristeza. “Para a medicina, a depressão é um transtorno. O importante é saber separar o sentimento do transtorno, que é o conceito médico”, diz o psiquiatra Renério Fráguas Jr., do Departamento e Instituto de Psiquiatria (Ipq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “Pode ser um transtorno depressivo maior ou um transtorno depressivo menor, leve e crônico”, ele completa. De forma filosófica e poética, mas ainda técnica, o médico psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes, presidente do Instituto da Psicanálise Lacaniana e do Projeto Análise, define a depressão como “um estado de lentificação psíquica, acompanhado de sensação de esvaziamento do mundo. É uma dor de viver”.

A Organização Mundial de Saúde explica a depressão como uma desordem mental que se apresenta com humor depressivo, perda de interesse ou de prazer nas coisas; sentimentos de culpa e baixa autoestima; distúrbios de sono e de apetite; falta de energia e de capacidade de concentração. Esses sintomas podem tornar-se crônicos ou recorrentes e causar no indivíduo a perda da capacidade de lidar com seu dia a dia. Em casos extremos a depressão pode levar ao suicídio.

Hoje, a depressão já está sendo chamada de “a doença do século”, tão grande foi o aumento da população de deprimidos nos últimos anos. Dados recentes da OMS, a Organização Mundial de Saúde, revelam que 121 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem desse mal. É a quarta doença que mais incapacita no planeta e, pelas projeções, será a segunda em 2020 e a primeira em 2030. Ainda, de acordo com a pesquisa da OMS, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking da depressão entre os países em desenvolvimento, atingindo de 10% a 12% dos brasileiros. A incidência em mulheres é duas vezes maior do que em homens.

Como perceber se de fato estou deprimido ou apenas triste?

Os sintomas

Mas, afinal, qual é a causa da depressão? Pesquisas atuais levam a crer que seja o desequilíbrio bioquímico dos neurônios que controlam o estado de humor. Em grande parte, esta constatação se deve à melhora que os antidepressivos trouxeram aos que sofrem da doença. Outros fatores possíveis para a depressão são predisposição genética e traumas de infância. “Pode ser decorrente de medicamentos, de doenças, causando uma alteração no sistema nervoso central – é então chamada de depressão secundária ou orgânica. Um exemplo: no hipotireoidismo há uma diminuição do hormônio da tireoide e isso interfere no metabolismo cerebral levando a sintomas depressivos”, diz o psiquiatra Fráguas Jr.

Como perceber se de fato estou deprimido ou apenas triste? Os sintomas muitas vezes são confundidos com os de outras doenças. “A irritabilidade é muito frequente, a pessoa pensa que é estresse, mas é um sintoma depressivo”, destaca Fráguas, citando outras características: autocrítica exacerbada, agitação, lentidão, pensamentos de morte, dores, tontura, enjoo. O grande dificultador do diagnóstico é que, diferentemente das doenças que podem ser detectadas por meio de exames de laboratório, ele é apenas clínico sintomatológico. Daí a importância do paciente relatar ao médico tudo o que vem sentindo.

O grande dificultador do diagnóstico é que, diferentemente das doenças que podem ser detectadas por meio de exames de laboratório, ele é apenas clínico sintomatológico.

Antidepressivos, a busca pela cura

Hoje, o uso muito difundido de antidepressivos torna o quadro para entender a depressão ainda mais complexo. As vendas desses medicamentos vêm crescendo em grandes proporções. Um levantamento do IMS Health, instituto que faz auditoria do mercado farmacêutico, revela que foram vendidas no Brasil 35. 239. 257 unidades de antidepressivos e estabilizadores do humor em um ano – de julho de 2010 a julho de 2011. Um aumento de 18,5 % nas vendas em relação ao período anterior – julho/2009 a julho/2010 -, e quase dobro do índice alcançado no período julho/2008 a julho/2009, de 10,8 %.

Entre os especialistas há vozes dissonantes – muitos não concordam com a banalização do uso desses medicamentos. O psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes é um deles. “Essa é uma tendência preocupante. Vale lembrar que quem mais receita os antidepressivos não são os psiquiatras, apesar de ser medicamento dessa especialidade, mas clínicos e cirurgiões de maneira geral”, diz ele. “Imaginem se psiquiatras passassem a receitar remédios para o coração, ou hormônios femininos, como se tivessem o conhecimento dos cardiologistas ou dos ginecologistas. É um problema de saúde pública, para o qual o lobby da indústria farmacêutica é em grande parte responsável”. Outro motivo que pode explicar o aumento das vendas é o uso indiscriminado do medicamento por pessoas que não sofrem de depressão, mas apenas passam por uma fase de sofrimento – separação, divórcio, luto… O psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha de São Paulo, duvida mesmo do rótulo de “mal do século” dado hoje à depressão. Em sua coluna semanal nesse jornal ele escreveu que “a depressão não é a doença do nosso tempo e, sim, sobretudo, uma doença que nosso tempo gosta de diagnosticar porque acha que encontrou a pílula certa para curá-la”. Para pôr mais lenha na fogueira, o psicólogo Jay Fournier, da

Universidade da Pensilvânia, em entrevista para o Journal of the American Medical Association (JAMA) diz que “apesar de sua grande popularidade os antidepressivos não são mais eficazes do que pílulas de açúcar – os placebos -, para pessoas com depressão leve ou moderada”. Depois de avaliar estudos e pesquisas publicados ele concluiu que o medicamento atua bem, mas nas formas mais graves de depressão.

O importante na depressão é não hesitar em buscar tratamento, pois existe e funciona.

Fugir do sofrimento

Fases difíceis não faltam na vida de qualquer um. E querer passar por elas sem sofrimento, à base de remédios, é uma forma de mascarar a realidade, de não mergulhar em seus verdadeiros sentimentos. Porém, uma fase de muito sofrimento na vida de alguém com predisposição genética para a depressão pode desencadear a doença. São tênues os limites entre tristeza e depressão e causam polêmica até mesmo entre os estudiosos da área. Os critérios que definem a doença foram reavaliados por especialistas, depois de uma pesquisa mundial, e publicados no Manual de Diagnósticos e Estatísticas da Sociedade Americana de Psiquiatria, o DSM. A obra, em sua quarta edição em 2011, está para ser reformulada e certos critérios de classificação para o transtorno depressivo maior podem mudar. Alguns psiquiatras e psicólogos acham a definição atual muito abrangente – até mesmo reações naturais de melancolia diante do sofrimento, do luto, têm sido diagnosticadas como transtorno depressivo. Em posição contrária, outros pesquisadores acham que excluindo muitos critérios da definição da doença o manual levaria a alguns erros (diagnósticos falso-negativos).

Enquanto os teóricos debatem, os deprimidos sofrem e tentam amenizar seu sofrimento com tratamentos e remédios. E depressão tem cura? O psiquiatra Renério Fráguas Jr. responde: “No transtorno depressivo maior a pessoa se trata, tem uma remissão completa, e pode ser que nunca mais volte a ter depressão. Como pode voltar a ter. O conceito de cura implica não precisar mais do remédio ou da psicoterapia e não ter o sintoma. Mas quem já passou por uma fase depressiva tem risco maior de uma recaída”.

persiste a concepção de que à medida que a pessoa envelhece fica mais desanimada…

Para a psicanálise, a depressão é decorrente de “uma postura ética de desistência de inventar soluções de viver” – palavras do psicanalista e médico Jorge Forbes. “A psicanálise não atua como as psicoterapias, opera no avesso das psicoterapias: devolve ao paciente a sua responsabilidade – atenção: responsabilidade, não culpa – frente ao seu mal estar, primeiro passo para uma mudança”, diz ele. Na experiência de Forbes alguns antidepressivos, quando bem indicados e por um tempo determinado, podem agir como facilitadores do tratamento psicanalítico. E qual seria esse tempo? De acordo com Fráguas o período é de seis meses a um ano. “Quando a pessoa tem a primeira fase depressiva, e com a medicação diz que está se sentindo ótima, pedimos que ela a mantenha por pelo menos seis meses, até um ano, para que se consolide aquela recuperação. Depois, se reduz devagar e a tendência é parar com o medicamento. Mas certos pacientes têm fases repetidas – esses precisam fazer tratamento de manutenção, que tanto pode ser o remédio quanto, em alguns casos, a psicoterapia”. Ele lembra ainda que em casos leves a moderados a remissão da depressão pode ocorrer apenas com a psicoterapia e que como regra geral, pessoas que se tratam com a associação de medicamento e psicoterapia apresentam melhor resposta ao tratamento.

Depressão na terceira idade

Por mais que hoje se tente disfarçar as agruras da velhice com termos como “melhor idade”, persiste a concepção de que à medida que a pessoa envelhece fica mais desanimada, sem interesse pelas coisas. Fráguas não concorda: “Não é porque a pessoa tem 80, 90 anos que necessariamente irá ficar mais desanimada. Ela claramente vai ter alguma restrição, não poderá fazer toda a atividade física que fazia antes, mas vai sentir prazer, se divertir com tudo a que pode ter direito. Na terceira idade é muito comum um subdiagnóstico dos grandes problemas devido a essa concepção errada e também ao preconceito”. Ele relata casos em que o paciente sente cansaço, tem falta de apetite, lentidão… Por ser diabético ou ter problemas no coração ele atribui os sintomas a esses males e não se queixa. “Se ele teve um acidente vascular cerebral (derrame) e agora sente dificuldade para se movimentar, acredita que não há mais o que fazer e nem leva esse problema para o médico. Os filhos também acham… e se estabelece uma depressão crônica”, conclui. O psicanalista Jorge Forbes também acredita no preconceito e nas consequências que acarreta nos mais velhos. “Falei que na depressão existe uma desistência da vida. Ora, o avançar da idade faz com que a pessoa se pense mais para o aterrissar do que para o decolar. Seu mundo vai ficando menor, menos diverso, logo, menos divertido. Existe um figurino prêt-à-porter de como ser velho da qual a desanimação faz parte. A sociedade reage mal a um velho entusiasmado, imediatamente o taxa de `velho saidinho`, por exemplo. Até o amor entre os velhos é mal visto. Como não ficar chateado nesse contexto”?

O importante na depressão é não hesitar em buscar tratamento, pois existe e funciona. “A depressão tem cura”, afirma o psicanalista Jorge Forbes. O psiquiatra Renério Fráguas destaca: “Hoje a medicina oferece uma grande variedade de antidepressivos e existem vários tipos de psicoterapia que aliados permitem as pessoas terem uma excelente expectativa”. Por caminhos diferentes, mas de modo integrado, chega-se ao tratamento pleno da depressão.

Publicado originalmente na edição 2 impressa do Guia da 3a Idade

Sobre o autor

Guia da 3a Idade

Tudo para 3a Idade em um único lugar. Saúde, Finanças, Geração 50+, Entretenimento e Diversão, Moradia, Agenda, Produtos, Guia de Viagem e muito mais.